Engenheiro envia nota ao Crea-CE e afirma que não é foragido

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O início da semana para os personagens da tragédia do Edifício Andréa, em Fortaleza, redefinirá a vida de quem escapou da morte e tenta se reconstruir após o desabamento. O POVO conversou com uma sobrevivente que morava no prédio – Kátia Ramos Nogueira, 40, e com o advogado Brenno Gomes de Almeida que falou pelo engenheiro José Andresson Gonzaga dos Santos, responsável pela obra que reformaria as pilastras e vigas do condomínio que ruiu na última terça-feira, 15, na rua Tibúrcio Cavalcante.

Andresson Gonzaga, proprietário da Alpha Engenharia Ltda, terá, a partir de hoje, a difícil missão de juntar provas técnicas para demonstrar que o início da reforma nas pilastras do Edifício Andréa não teria causado o desmoronamento da edificação. De acordo com o advogado Brenno de Almeida, um perito em construção civil (engenheiro) será contratado para produzir um laudo técnico. “Como o trabalho de resgate foi concluído no sábado passado, 19, agora vamos começar a construir a defesa especializada já que não há mais impedimento para coleta de informações na área”, explica.

Na última sexta-feira, Andresson Gonzaga e seu advogado protocolaram uma nota no Conselho Regional de Engenharia e Agronomia (Crea-CE) “esclarecendo que o engenheiro não havia sumido após a tragédia”. De acordo com Brenno de Almeida, até então, o Crea-CE trabalhava com a versão do “desaparecimento” ou “fuga” do associado.

Horas depois de escapar do desabamento do Edifício Andréa, Andresson Gonzaga e Carlos Alberto – engenheiro contratado pela Alpha Engenharia para trabalhar na reforma, se apresentaram com o advogado na Delegacia do 4º Distrito Policial (4º DP) de Fortaleza.

Em depoimento ao delegado José Munguba Neto, Andresson Gonzaga afirmou que “o prédio tem mais de 40 anos que foi construído e já deveria ter passado por manutenções preventivas”. Argumento que a defesa utilizará para tentar provar que a suposta falta de reparos estruturais foi a causa principal do desabamento da edificação de sete andares, além do motivo da morte de nove pessoas.

E por qual razão o engenheiro não se recusou a fazer o serviço de reforma das pilastras e das vigas do Edifício Andréa, já que a estrutura estava comprometida? De acordo com Benno de Almeida, “não havia motivo para Andresson recusar aquele trabalho específico e ele tinha aptidão para executar a obra. Numa profissão, não podemos rejeitar o serviço bom ou ruim. E o Crea-CE, órgão fiscalizador, havia emitido a Anotação de Responsabilidade Técnica (ART)”.

A vida de Andresson Gonzaga, segundo o advogado, também virou de ponta à cabeça. Ter escapado, segundos depois da queda abrupta do edifício, teria se transformado em um drama pessoal para o engenheiro formado em julho deste ano. No momento do destroço, ele estava no térreo com o engenheiro Carlos Alberto, o pedreiro Amauri, um zelador e a síndica Maria das Graças Rodrigues, 70. Ela não escapou e foi o último corpo resgatado no sábado, 19, pelo Corpo de Bombeiros do Ceará.

Por causa da repercussão do horror ocorrido no bairro Dionísio Torres, pelos menos dois contratos assinados com a Alpha Engenharia teriam sido cancelados. “Eu o aconselhei a voltar a trabalhar, mas ele está num turbilhão. Ele também é uma vítima”, afirma o advogado Brenno de Almeida.

Na outra ponta do drama do Edifício Andréa, a analista contábil Kátia Ramos Nogueira, 40, ainda tenta entender o que aconteceu em sua vida, na do esposo, da filha e dos pais idosos. Por alguma razão do destino, sobreviveram. Por motivos diferentes não estavam no apartamento que fica na cobertura do prédio.

“Hoje, retorno ao trabalho (na Federação das Indústrias do Estados do Ceará (Fiec) e minha filha à escola. Meu esposo continuou trabalhando. Estamos ainda entorpecidos, parece um pesadelo”, confidencia a sobrevivente que mora no prédio há 36 anos. O pai e a mãe, os aposentados Clotário Sousa Nogueira, 78, e Ana Maria Ramos, 72, foram os primeiros moradores do condomínio. No dia da tragédia, diferente de suas rotinas, tiveram de ir ao banco horas antes do desabamento.

A casa dos sogros virou morada temporária, mas tudo parece ter ganhado um ar de travessia sem fim. “Às vezes dá um desespero, mas lembro do livramento, do milagre que Deus fez em nossas vidas e agradeço. Porém não é fácil, de repente, amanhecer sem um documento, uma roupa, sem a vida construída até a hora de tragédia e perder tudo”, crava Kátia Nogueira.

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